18 de fevereiro de 2007

18. Almanaque

«Os carros do Minho

Uma coisa inteiramente especial e digna de estudo é o aspecto das numerosas diligencias, breacks e chars-á-bancs, que circulam sobre as estradas do Minho, desde os Arcos e desde Ponte do Lima até Vianna.

Dois pequenos garranos, quando não é um só, puxam por cima do macadam faiscante de sol as mais phantasticas carradas de gente e de objectos que a imaginação póde conceber. Dentro do vehiculo senta-se a primeira camada de passageiros nas bancadas. Depois de todos os lugares occupados estrictissimamente, á cunha, o vehiculo considera-se completamente vazio, e mette-se-lhe a segunda camada de passageiros, collocada exactamente em cima da primeira. Feita esta operação começa o interior do carro a achar-se quasi cheio, mas não cheio de todo, porque entre o tecto, os joelhos e os bustos dos passageiros da segunda camada, nota-se ainda um espaço oblongo a toda a extensão da berlinda, desde a portinhola do fundo até ao vidro da frente. Preenchido este espaço com um passageiro extendido ao comprido, passa-se a occupar os bancos da imperial e o tejadilho.

Fóra, em vez de ir empilhados como no interior, os passageiros são ensandwichados methodicamente com as bagagens e com as mercadorias, pela ordem seguinte: camada de mercadorias, primeria camada de passageiros, primeira camada de bagagens, segunda camada de passageiros, segunda camada de bagagens; e em cima de tudo isto o penso para os garranos, os merendeiros e os varapaus dos passageiros, e no ar, a um lado, seguro da almofada pela cinta, seguro do guarda-lamas pelas pernas, o cocheiro levado a bruços pelos viajores.

Para quem olha de longe, a carruagem desapparece completamente sob a enorme massa viva, e não se vê mais que um inverosimil cacho de gente agarrada uma á outra por um engaço mysterioso, bamboleando ao sol, oscillando da direita para a esquerda e da esquerda para a direita e proseguindo lentamente, levado por duas formigas.

Chegados ao termo da viagem, na praça mais espaçosa da povoação, os garranos param, a carruagem esvazia-se, e a praça enche-se.»

Ramalho Ortigão, in Novo Almanach de Lembranças Luso-Brazileiro para o anno de 1895.

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